CAPÍTULO: CULTURA DE LÍQUIDOS CAVITÁRIOS
- Introdução e Fisiopatologia das Cavidades Serosas
No organismo humano, existem cavidades delimitadas por membranas serosas que abrigam volumes fisiológicos mínimos de fluidos, conhecidos coletivamente como líquidos cavitários. Este grupo inclui os líquidos pleural (da cavidade torácica), peritoneal (da cavidade abdominal), pericárdico (do saco cardíaco) e sinovial (das articulações), além do fluido decorrente da diálise peritoneal em pacientes renais crônicos.
Em condições de homeostase, esses líquidos são ultrafiltrados do plasma, apresentam-se límpidos, incolores ou ligeiramente amarelados, contêm escassas células nucleadas e baixa concentração proteica, sendo rigorosamente estéreis. Desse modo, o achado de qualquer quantidade ou espécie de microrganismo (bactérias, fungos, vírus ou parasitas) nesses sítios possui alta relevância clínica, configurando um processo infeccioso agudo ou crônico que exige intervenção médica imediata.
Quando ocorre uma agressão sistêmica ou local, o volume dessas cavidades aumenta patologicamente, gerando o fenômeno conhecido como efusão ou derrame. Clinicamente, essas efusões são classificadas em duas grandes categorias:
- Transudatos: Decorrem de desequilíbrios pressóricos hidrostáticos ou oncóticos (como na insuficiência cardíaca congestiva ou cirrose hepática), sem alteração da permeabilidade capilar. Caracterizam-se por baixa celularidade, baixos níveis de proteína e pela ausência de microrganismos.
- Exsudatos: Resultam de processos inflamatórios, neoplasias ou infecções que agridem diretamente as membranas serosas, cursando com aumento expressivo de leucócitos e proteínas. Quando o exsudato cavitário apresenta aspecto francamente purulento e contagem massiva de neutrófilos polimorfonucleares, recebe o nome de empiema, sendo frequentemente secundário a quadros infecciosos adjacentes, como as pneumonias bacterianas.
- Coleta e Manejo Pré-Analítico das Amostras
A obtenção dos líquidos cavitários é um procedimento médico invasivo realizado à beira do leito por meio de punções aspirativas específicas, tais como a toracocentese (líquido pleural), paracentese (líquido peritoneal), pericardiocentese (líquido pericárdico) e artrococentese (líquido sinovial).
Para o sucesso da análise microbiológica, os seguintes requisitos pré-analíticos são obrigatórios:
- Antissepsia Cirúrgica: A pele do paciente no local da inserção da agulha deve ser preparada com rigor cirúrgico (fricção com álcool a 70% seguida de clorexidina alcoólica ou iodopovidona), minimizando o risco de translocação de microrganismos colonizadores da derme para a amostra ou para o espaço cavitário.
- Acondicionamento e Transporte: O fluido aspirado deve ser distribuído assepticamente em tubos estéreis (com e sem anticoagulante) e enviado imediatamente ao laboratório em temperatura ambiente. Amostras destinadas à cultura bacteriana nunca devem ser refrigeradas, sob o risco de inviabilização de patógenos fastidiosos.
- Uso de Frascos de Hemocultura: Em complemento aos tubos convencionais, a inoculação de uma alíquota do líquido cavitário (cerca de 5 a 10 mL) diretamente em frascos de hemocultura automatizada à beira do leito é uma prática altamente recomendada. Os meios líquidos enriquecidos desses frascos diluem eventuais fatores antibacterianos naturais presentes no exsudato e aumentam significativamente a sensibilidade e a velocidade de detecção bacteriana.
- Critérios de Rejeição e Aceitabilidade
A garantia da qualidade analítica em líquidos nobres baseia-se na aplicação estrita de barreiras contra amostras inadequadas. O laboratório deve recusar o processamento nas seguintes condições:
- Discrepâncias de identificação ou dados ausentes na etiqueta do frasco e pedido médico.
- Amostras coletadas ou transportadas em frascos inadequados (vazando, destampados ou em recipientes não estéreis).
- Materiais biológicos enviados imersos em soluções fixadoras como formalina ou formol, que provocam a morte celular imediata e anulam o ensaio de cultivo.
- Atraso no transporte: Amostras mantidas por longos períodos em temperatura ambiente sem processamento, o que induz à autólise de patógenos exigentes.
- PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRÃO (POP): CULTURA DE LÍQUIDOS CAVITÁRIOS
4.1. OBJETIVO
Padronizar as etapas de triagem, processamento macroscópico, coloração de Gram, inoculação em meios sólidos, subcultivo de frascos e emissão de laudos de líquidos cavitários (pleural, peritoneal, pericárdico e sinovial).
4.2. MATERIAIS, REAGENTES E EQUIPAMENTOS
- Placas de ágar Sangue de Carneiro a 5%, ágar Chocolate e ágar MacConkey (MAC).
- Tubos de ágar Tioglicolato (meio para anaeróbios facultativos e estritos).
- Kit de reagentes para Coloração de Gram.
- Centrífuga laboratorial.
- Tubos cônicos de centrífuga estéreis (15 mL).
- Alças plásticas descartáveis ou de platina calibradas.
- Seringas e agulhas estéreis.
- Cabine de Segurança Biológica (Fluxo Laminar Classe IIA).
- Estufa bacteriológica convencional (35oC – 37 oC) e estufa de CO2 (5% a 10%).
4.3. PROCEDIMENTO PASSO A PASSO
Passo 1: Triagem Macroscópica e Preparo da Amostra
- Higienizar as mãos, calçar os EPIs obrigatórios e realizar o procedimento exclusivamente dentro da Cabine de Segurança Biológica.
- Registrar as características macroscópicas do líquido cavitário recebido: volume, cor (citrino, hemorrágico, purulento, turvo) e aspecto (fluido, espesso, presença de coágulos).
- Transferir uma alíquota de 10 mL do líquido para um tubo cônico estéril.
- Centrifugar o tubo a 3000 rpm por 15 minutos. Nota: A centrifugação concentra os microrganismos e os leucócitos no sedimento, aumentando exponencialmente a sensibilidade do exame.
- Separar assepticamente o sobrenadante (reservando-o para testes bioquímicos, se solicitado) e homogeneizar delicadamente o sedimento bacteriano residual para as etapas seguintes.
Passo 2: Análise Microscópica de Urgência (Gram)
- Depositar uma gota do sedimento homogeneizado em uma lâmina de microscopia limpa, confeccionando um esfregaço delgado. Deixar secar ao ar livre e fixar pelo calor.
- Executar a técnica de Coloração de Gram padrão.
- Analisar a lâmina sob microscopia óptica com lente de imersão (100X). Avaliar a presença, morfologia (cocos, bacilos) e o comportamento tintorial (Gram-positivo ou Gram-negativo) das bactérias ou estruturas fúngicas, bem como a intensidade do infiltrado leucocitário.
ALERTA DE FLUXO CRÍTICO: O resultado da bacterioscopia de líquidos cavitários é considerado um resultado crítico de urgência. O microbiologista deve notificar imediatamente, por via telefônica ou canal oficial, o médico assistente ou o plantonista da unidade, informando os achados presuntivos. Registrar no sistema informático o nome do profissional notificado, a data e o horário exato da ligação.
Passo 3: Inoculação nos Meios de Cultura (Semeadura)
A partir do sedimento concentrado e homogeneizado, realizar a semeadura por esgotamento utilizando alça estéril:
- Ágar MacConkey: Inocular para a seleção e triagem de bacilos Gram-negativos.
- Ágar Sangue de Carneiro a 5%: Para o crescimento de patógenos aeróbios e facultativos em geral.
- Ágar Chocolate: Para o isolamento de microrganismos altamente exigentes e fastidiosos (ex: Haemophilus spp., Neisseria spp. e Streptococcus pneumoniae).
- Caldo Tioglicolato: Inocular de 1 a 2 mL do sedimento diretamente no fundo do tubo do caldo com o auxílio de uma pipeta ou seringa estéril, minimizando a oxigenação do meio para favorecer o crescimento de bactérias anaeróbias.
Passo 4: Condições de Incubação
As placas e tubos semeados devem ser distribuídos nas estufas conforme os seguintes critérios:
- Ágar MacConkey e Ágar Sangue: Incubar em estufa com atmosfera normal (aerobiose) a 35 oC -37 oC por 24 horas.
- Ágar Chocolate: Incubar obrigatoriamente em estufa de CO2 ou em jarra com gerador químico que produza uma atmosfera rica de 5% a 10% de CO2 a 35oC por 24 horas.
- Caldo Tioglicolato: Incubar em estufa convencional por até 7 dias, realizando leituras visuais diárias de turvação.
Passo 5: Avaliação de Culturas Negativas e Extensão de Prazos
- Se após as primeiras 24 horas de incubação as placas sólidas não mostrarem crescimento bacteriano, reincubá-las por mais 24 horas (totalizando 48 horas de análise).
- Caso haja suspeita clínica específica de anaeróbios estritos ou o caldo tioglicolato apresente turvação sem crescimento nas placas aeróbicas, realizar um repique secundário do caldo para meios específicos de anaerobiose (como ágar Sangue suplementado) e incubar em jarra de anaerobiose por mais 48 horas a 35 oC antes de fechar o diagnóstico.
- Investigações especiais: Se houver suspeita médica de micobactérias (tuberculose pleural/peritoneal) ou fungos, o sedimento deve ser semeado adicionalmente em meios específicos como Lowenstein-Jensen e ágar Sabouraud, estendendo-se os prazos de incubação conforme os Manuais Técnicos (4 a 6 semanas para micobactérias).
Passo 6: Identificação Final e Antibiograma
- Diante de qualquer crescimento microbiano nas placas primárias ou nos repiques, proceder imediatamente à identificação taxonômica de gênero e espécie (através de provas bioquímicas manuais ou sistemas automatizados).
- Executar o Teste de Susceptibilidade aos Antimicrobianos (TSA/Antibiograma), seguindo rigorosamente os critérios de interpretação e tabelas de pontos de corte vigentes estabelecidos pelos documentos normativos nacionais (BrCAST/EUCAST).
4.4. CONTROLE DE QUALIDADE INTERNO
- Testar mensalmente o lote dos meios de cultura preparados com cepas controle padrão de referência internacional (ATCC): Streptococcus pneumoniae ATCC 49619 (crescimento no ágar sangue/chocolate), Escherichia coli ATCC 25922 (crescimento no MAC) e Bacteroides fragilis ATCC 25285 (crescimento no tioglicolato/anaerobiose).
- Registrar diariamente as temperaturas das estufas de aerobiose, CO2 e das geladeiras de armazenamento de insumos.
- EMISSÃO DO LAUDO FINAL
- Cultura Negativa: Se após o período regulamentar completo de incubação não houver crescimento, reportar: "Ausência de crescimento bacteriano após 48 horas de incubação aeróbica e capnofílica." (Acrescentar a observação do caldo anaeróbio se aplicável).
- Cultura Positiva: Liberar o laudo discriminando o nome científico completo da espécie isolada (Gênero e espécie), acompanhado do perfil interpretativo detalhado do Antibiograma (Sensível, Intermediário ou Resistente). Todos os laudos devem ser revisados e validados por um profissional qualificado antes da liberação final.
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (NORMAS ABNT)
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Microbiologia Clínica para o Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde: Módulo 4: Procedimentos Laboratoriais: Da requisição do exame à análise microbiológica e emissão do laudo. Brasília, DF: ANVISA, 2013.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL (SBPC/ML). Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial: Boas Práticas em Microbiologia Clínica. Coordenação de Henis Madi. Barueri: Manole, 2015.





